AnálisesCine & SériesDestaques

“The Last Black Man in San Francisco” – o sonho irresoluto de Joe Talbot

O debutante na realização Joe Talbot apresenta uma história pessoal, num guião coescrito com Rob Richert, através de uma história criada pelo ator principal – numa representação ficcional de si mesmo – Jimmie Fails.
Deambulando pelas ruas e bairros de São Francisco, estes dois recém-criadores introduzem o espetador à sua visão de uma das cidades mais caras, inovadoras e cosmopolitas dos EUA, apontando o dedo e a câmara à evolução imobiliária e demográfica da cidade, numa crítica social poderosa, apesar de suavizada pelas narrativas paralelas – sobre família e amizade – e pela fotografia quase onírica de Adam Newport-Berra.

O filme abre com uma menina negra a olhar com curiosidade para um homem branco, protegido por um fato antirradiação, que limpa a rua. Como ruído de fundo ouve-se um discurso que interroga porque é que alguns têm fatos para se proteger e outros não. A câmara aponta para o pregador e, ao afastar-se, denuncia a plateia praticamente vazia à sua frente, exceção feita pelos dois homens que, junto a uma paragem de autocarro, assistem ao discurso.
Eles são Jimmie Fails e Montgomery Allan (interpretado por Jonathan Majors) – as personagens que farão parte da trama durante todo o filme. Eles vivem neste bairro, na casa do avô (Danny Glover) de Mont – assim é muitas vezes chamado por quem lhe é mais próximo –, um homem cego amante dos filmes clássicos (que Mont lhe vai descrevendo atenciosamente).
O local onde esta primeira cena decorre é o bairro Bayview-Hunters Point, na península da baía de São Francisco, um lugar onde estiveram, durante muito tempo, atracados barcos expostos a testes nucleares, contaminando a zona. Este é um primeiro ponto importante de um filme que, na sua génese, fala sobre viver em lugares onde não se quer viver, sobre deslocações determinadas por fatores externos às decisões pessoais e sobre não ter um lugar para chamar “casa”. Esta situação é exemplificada, exatamente, pela maioria afro-americana neste bairro, obrigada a mover-se do centro de uma cidade cujos preços das propriedades aumentaram para níveis incomportáveis.

Jimmie e Mont aguardam ansiosamente por um autocarro que teima em não chegar, pondo em causa a sua presença atempada em algum sítio que o espetador ainda desconhece. Optam por viajar até à cidade em cima do skate de Jimmie.
A viagem, aparentemente longa, mostra-nos várias paisagens de São Francisco e das suas gentes, acompanhadas por uma música em crescendo, pontuada por imagens em câmara-lenta e por um sol quente, até à chegada ao destino: uma casa vitoriana em Fillmore, um bairro nobre de São Francisco, onde os dois amigos entram clandestinamente.
Enquanto Jimmie retoca a pintura de uma das janelas da casa, os dois moradores atuais chegam e, através do arremesso de vegetais, tentam expulsá-lo da sua propriedade – algo que, percebe-se, já teria acontecido antes.
Aqui, o enredo adensa. Esta casa vitoriana tinha sido o lar de Jimmie, até aos 6 anos de idade. O pai, James Sr. (Rob Morgan), tinha-a herdado do seu avô, que a tinha construído com as próprias mãos.
A ligação entre Jimmie e a casa é como um parentesco. O edifício é uma personificação de uma família que já não existe. Ao mesmo tempo, funciona como muleta, que ajuda a restituir a nostálgica memória de pertença – não só familiar, mas também espacial, emocional, existencial.

Ao mesmo tempo que Jimmie percorre esta viagem tão pessoal – de encontro e reencontro com o passado e com o presente –, Mont observa. Ele é, de facto, um observador nato, que faz uso dessa qualidade.
Enquanto contempla, vai escrevendo e desenhando. O caderno de bolso vermelho que leva consigo para todo o lado, serve como abrigo da sua criatividade. É lá que decorrem as ações das peças de teatro que redige e que, sozinho, interpreta. Estas peças relatam a sua vida, a vida de Jimmie e as demais personagens que existem nos lugares que fazem parte do seu dia-a-dia – como o bairro e os seus habitantes, o mercado de peixe onde trabalha ou as tardes que passa a ver filmes com o avô.
Assim que os atuais habitantes da casa se mudam, Jimmie aproveita a janela de oportunidade para a ocupar – através de truques ensinados pelo pai, repetidos ao longo de uma juventude (quase) nómada.
Recupera os móveis antigos, restaura os interiores e muda-se para o único lugar onde sente que pertence, juntamente com Mont. Os dias são passados trabalhando no edifício, respirando os cheiros e as memórias, examinando cada canto, cada detalhe e usufruindo, de forma muito pessoal, dos espaços – talvez pressentido que a situação não é eterna.

As peripécias dos dois amigos no regresso ao lar da infância de Jimmie acabam por tomar uma volta (in)esperada, assente em três pontos fulcrais: uma revelação imprevista; um agente imobiliário que põe a casa à venda e os tenta expulsar; e uma tragédia que assola o bairro de Bayview-Hunters Point,  particularmente marcante para Jimmie e Mont, por diferentes razões.
É na senda destes acontecimentos que Mont se inspira para a encenação final da sua peça, a ser apresentada no único palco que faria sentido: a casa de Fillmore.
O espetáculo toma proporções – mais uma vez – (in)esperadas e é sintomático de uma inevitável despedida daquele lugar.

“The Last Black Man in San Francisco” é um filme sentimental e com propósitos nobres e válidos, mas é precisamente na forma como os tenta passar para o ecrã que se perde. Perde-se, essencialmente, na superficialidade que é totalmente contrária à ideia da história. Ela contrasta com a profundidade da desorientação de Jimmie que vai, obviamente, para além do quase incontrolável desejo de voltar a um lugar – que é simbólico por tantas razões – mas que se parece agarrar a pouco mais que a materialidade das suas vontades.
Existem outros enredos nos bastidores, mas Talbot toca-lhes com uma leviandade despropositada: o sentimento de amor-ódio em relação à cidade de São Francisco e à atual realidade social; o estranho e quase geral desprendimento às relações humanas – que parece ser tão forçado como justificado, tornando-se pouco genuíno; e a indefinida relação com Mont que, apesar de ternurenta é tão estranha que se torna pouco credível.
Na verdade, este é um filme que, pelo seu já referido lado onírico, é quase tão implausível como um qualquer sonho surreal.
Deixar o espetador com questões, promover enigmas e alimentar ambiguidades são vários meios para enfatizar a qualidade de um filme, mas tal não acontece aqui.
Tudo flutua, mas nada verdadeiramente acontece – e o que acontece não surpreende, nem convence. As imagens, ainda que belas, são desvirtuadas por uma ação muitas vezes turva em significado e importância, e as palavras são quase impercetíveis,  ecoando abafadas, por vezes vazias.

Ainda assim, a obra de Talbot acaba por ter alguns pontos interessantes, que lhe acrescentam bastante valor.
Primeiro, pelas interpretações: de Danny Glover e Rob Morgan, que são marcantes e mereciam mais tempo no ecrã; de Jonathan Majors, que enche o ecrã com uma interpretação bizarra, mas crível, recheada de maneirismos e de expressão própria.
Depois, a beleza da fotografia, muitas vezes reminiscente de Wes Anderson, que cria uma ambiência estimulante, infelizmente desaproveitada.
Finalmente, a ideia de trazer ao ecrã temas como família, pertença e amizade e as evoluções sociais e demográficas das cidades e quem elas verdadeiramente prejudicam. O propósito é nobre, mas, lamentavelmente, é concretizado através de uma desencantada vagueza.

A estreia de Talbot não é deslumbrante no seu todo, mas é meritória de fazer parte de uma onda independente do cinema americano, que tem vindo a reaparecer em força – muito por via do estúdio A24.

 


Utilizamos cookies para o devido funcionamento do nosso site. Ao utilizares o oitobits.io aceitas os nossos termos e condições.