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“Mulherzinhas” – o cinema como arte e mensagem, por Greta Gerwig

O romance “Mulherzinhas”, de Louisa May Alcott foi publicado, pela primeira vez, em 1868. Poder-se-ia pensar, a princípio, que os mais de 150 anos de distância em relação à longa-metragem realizada por Greta Gerwig e estreada no fim de 2019 (só chegou a Portugal em janeiro de 2020) tornariam a obra num retrato de época, longínquo e desfasado da realidade atual.
No entanto, um pouco como já tinha acontecido com a anterior criação da realizadora e argumentista (“Lady Bird”, 2017), este é um manifesto importante no momento em que surge.
A história – já conhecida pelo livro e pelas versões cinematográficas que antecedem esta (1933, 1949 e 1994) – não é novidade, mas é aqui apresentada através de um registo diferente.
Gerwig desdobra a obra original em duas linhas temporais, mexendo com a cronologia, mas também com a forma – ainda que mantendo o conteúdo intacto: acompanhamos, ora em tempo real, ora através de flashbacks, as aventuras e desventuras da família March, maioritariamente composta por mulheres – à parte do pai, pouco presente, interpretado por Bob Odenkirk.

A primeira personagem que ficamos a conhecer é Jo March, interpretada pela estupenda Saoirse Ronan, que volta aqui a trabalhar com Gerwig depois de “Lady Bird”. Com as mãos sujas de tinta, consegue vender uma história a um jornal nova-iorquino, apesar de fingir não ser a autora original. De volta à residência onde vive, uma pequena interação apresenta-nos também Friedrich Bhaer (Louis Garrel), que a alerta para o vestido que vai ardendo por estar encostada à lareira.

Pouco depois, somos transportados até Paris, onde encontramos Amy March, interpretada por uma não menos espantosa Florence Pugh – que termina 2019 com mais uma grande atuação, depois de “Midsommar” –, numa presença que transparece tanto ingenuidade e infantilidade, como elegância e determinação. A primeira vez que a vemos, Amy está a pintar num jardim. Ao lado, um pintor representa a mesma cena. A comparação, autocrítica, entre o seu trabalho e o do homem ao seu lado é inevitável – a interpretação, a nossa e a dela, também. A câmara corta para um passeio de charrete, onde Amy e a Tia March (Meryl Streep) conversam. A tia March confessa a sua opinião sobre como “os decadentes arruinaram Paris”, quase adivinhando o aparecimento, pouco depois, de Theodore Laurence, ou Laurie, interpretado pelo altamente requisitado Timothée Chalamet.

De volta a Inglaterra, é a vez de entrar em cena Emma Watson, no papel de Meg March – além do sucesso alcançado, a atriz é uma conhecida ativista quanto ao papel das mulheres na sociedade e, sem que isso influencie a bela prestação em “Mulherzinhas”, vai de encontro com os propósitos da história, incluindo a da sua personagem.

O som das notas de um piano funciona como introdução para a irmã mais nova do clã, Beth March, a quem dá voz Eliza Scanlen, facilmente reconhecível depois da poderosa contribuição em “Sharp Objects”. A delicadeza com que se exibe irá, mais tarde, ser sinónimo da sua fragilidade, confirmando o talento exibido na série da HBO.

Esta abertura, em quatro partes, revela, desde logo, alguns dos obstáculos a ter em conta na vida destas mulheres: Jo vende a sua história, desde que aceite as edições que é obrigada a fazer; Amy encontra-se com o adverso e machista mundo artístico; Meg toma uma decisão economicamente duvidosa; e Beth vê o seu momento musical interrompido. Assim será o resto do filme, uma luta pelas paixões e pelas pequenas peças de uma individualidade e autonomia que teima em escapar às irmãs March – e às mulheres que elas representam.
Além desta ideia, fica também estabelecido que cada uma das irmãs é diferente das outras. Nos gostos, nos ideais, nos objetivos e nas vicissitudes, mas é também por isso que a narrativa toca em tantas pessoas que, tal como elas, têm as suas próprias características. Não se priorizam nem se enaltecem mais as vontades artísticas, os planos domésticos ou as opções amorosas e, apesar dos papéis principais ou mais secundários, a importância dada à existência de cada uma das irmãs não é descurada.
O filme é veículo de uma perspetiva feminista abrangente. É um tratado de mulheres sobre mulheres e, apesar de ser uma obra de arte, não é presunçosa nem se torna inacessível ao público geral, incluindo os homens – daí também a sua importância.

O desenvolvimento do filme, que Gerwig coordena e orienta a seu bel-prazer, com uma eficácia tremenda, vai acompanhando o desenvolvimento da vida destas mulheres que, em diferentes lugares, momentos ou com diferentes meios, vão lutando contra um patriarcalismo estabelecido, dominado por figuras masculinas. Sejam elas as pressões de um casamento “digno”, as expetativas profissionais (ou a falta delas), ou os inevitáveis e gerais acontecimentos da vida – como o amor ou a morte.

Mas este “Mulherzinhas” não se torna uma grande obra apenas pela importância social. De facto, os fatores que funcionam como envolvente da mensagem muito acrescem à qualidade do filme.
O elenco é extenso em número e qualidade. Já se falou de Ronan e Pugh – nomeadas para os Óscares de Melhor Atriz Principal e Melhor Atriz Secundária, respetivamente –, Watson, Scanlen, Streep, Chalamet, Garrel ou Odenkirk; mas nunca é demais referir Laura Dern (Marmee, a mãe da família March) – vencedora do Óscar de Melhor Atriz Secundária, pela prestação em “Marriage Story” – ou o veterano Chris Cooper no papel de Mr. Laurence, o generoso vizinho da família March e avô de Laurie.
É inevitável fazer referência à vencedora do único Óscar arrecadado por “Mulherzinhas”, na categoria de Melhor Guarda-Roupa, Jacqueline Durran, que capta perfeitamente o estilo da época, adequando-o a cada uma das personagens.
A cinematografia, a cargo de Yorick Le Saux, que tanto consegue ser direta como delicada, crua ou encantadora e realista ou sonhadora, fundindo-se facilmente com a narrativa. Ambas são ajudadas pela Banda Sonora produzida por Alexandre Desplat, também ele nomeado para o Óscar na sua categoria.

Por fim, o cérebro por trás desta construção artística: Greta Gerwig.
Se o Óscar para Melhor Guião adaptado fugiu para o extravagante Taika Waititi e o seu “Jojo Rabbit” – qualquer um dos dois seria um justo vencedor –, o de melhor filme acabou nas mãos de Bong Joon Ho e o seu surpreendente e superior “Parasitas”. Ainda assim, a escrita e a direção de Gerwig (que já contava com as nomeações para Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Guião Original com “Lady Bird”), volta a ser reconhecida pela Academia.

Num ano em que filmes como “Ousadas e Golpistas” (de Lorene Scafaria) ou “A Despedida” (de Lulu Wang) e, principalmente, “Retrato da Rapariga em Chamas” (de Céline Sciamma) se tornam marcantes por uma ascensão, em qualidade e em número, do papel das mulheres no cinema – seja ele independente ou de massas, em termos técnicos ou de narrativa –, “Mulherzinhas” carrega também este testemunho. Dá ênfase à presença necessária de pessoas e de histórias, fundamentais, como qualquer outra, para a compreensão daquilo que vai acontecendo fora do ecrã – que tantas vezes funciona como uma tela em branco para a expressão de ideias e, tantas outras vezes, como um verdadeiro espelho de realidades sociais.

 

Mulherzinhas

Uma nova perspetiva da obra clássica de Louise May Elcott, através do olhar preciso e inovador de Greta Gerwig e das atuações memoráveis de Saoirse Ronan e Florence Pugh.
80%

Overall

Pontos Positivos

  • +Elenco
  • +Realização
  • +Guarda-roupa
  • +Guião

Pontos Negativos

  • -Pouca contextualização histórica
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