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“Knives Out: Todos são Suspeitos” – homicídio e mistério, por Rian Johnson

O novo filme de Rian Johnson, autor de The Last Jedi (2017), é um regresso ao género do mistério com que se estreou em Brick (2006), com as devidas diferenças.
Se Brick recordava mais o género noir de “The Maltese Falcon” (1941) – de John Huston e com Humphrey Bogart -, “Knives Out” tem reminiscências de Poirot e de Agatha Christie em geral.
Com um elenco de luxo, encabeçado por Daniel Craig e pela estrela em ascensão Ana de Armas – e recheado com nomes como Jamie Lee Curtis, Michael Shannon, Toni Collette, Christopher Plummer e Chris Evans, entre outros – um guião bem trabalhado por Johnson, um ótimo trabalho da equipa de design, a cargo David Schlesinger (direção de arte) e Jenny Eagan (guarda-roupa) e uma interessante fotografia de Steve Yedlin, Knives Out consegue aquilo que se propõe: entreter o espetador durante as duas horas e dez minutos de duração.

Antes de assistirmos à primeira cena, o realizador introduz o filme com um pedido à audiência para que os contornos misteriosos da trama assim se mantenham à saída da sala, para que todos possam usufruir da experiência da mesma forma.
Pouco depois, a primeira imagem a aparecer no grande ecrã é a da mansão Thrombey, de paredes exteriores avermelhadas e telhados escuros. Nisto, do meio de um nevoeiro rasteiro e denso, dois cães-guarda correm em direção à câmara. A intensa e estridente música de fundo completa o cenário e remete para o contexto macabro que define a história.

A primeira parte do filme concentra-se em apresentar grande parte das muitas personagens que dele fazem parte. A primeira é Fran (Edi Patterson), a governanta da mansão, que prepara o pequeno-almoço do seu chefe. No entretanto, vários stills da casa vão-nos apresentando o contexto espacial, mas também a atmosfera do lugar onde se passará grande parte da película. Convenientemente decorada com cores escuras, máscaras, bonecos de madeira, papéis de parede intensamente decorados e livros de mistério escritos pelo dono da casa, desdobrando-se entre divisões amplas, escadas ruidosas, portas mal oleadas, caminhos secretos e entradas escondidas, esta mansão é o lugar ideal para um crime enigmático.
De seguida, quando Fran encontra Harlan Thrombey (Chistopher Plummer) com a garganta cortada e com a cabeça encostada a uma almofada manchada com o próprio sangue, a faca ao seu lado, no chão, aponta para que esta tragédia seja um aparente suicídio.
A imagem corta e vemos Marta Cabrera (Ana de Armas), a enfermeira de aspeto angelical, inocente e ingénuo que cuidava de Harlan, a acordar sobressaltada na sua cama. Na cena a seguir, a mãe adverte a irmã, que assiste a uma série sobre um assassino, para a situação de Marta, que está claramente perturbada com a morte do seu “amigo”.
Esta situação familiar é interrompida por uma chamada de Walter Thrombey (Michael Shannon), que pede a Marta para voltar à mansão, onde a polícia se encontra a fazer perguntas às pessoas próximas de Harlan. Walter é um dos filhos do patriarca falecido, que gere a editora e distribuidora dos livros do pai – ele é casado com Donna (Riki Lindhome) e pai do estranhamente calado, mas indiscretamente racista Jacob (Jaeden Martell).
À chegada à mansão, Marta encontra-se com Meg Thrombey (Katherine Langford), uma das mais novas da família, que a consola com um abraço e, mais à frente, Linda Drysdale (Jamie Lee Curtis), a filha mais velha de Harlan, abre a porta da casa. Linda é casada com Richard Drysdale e é mãe de Ransom (Chris Evans), que faltou ao funeral do avô e que tende em aparecer unicamente em caso de (sua) necessidade.

A cena a seguir mostra-nos as primeiras entrevistas da polícia à família. Os polícias Tenente Elliott (LaKeith Stanfield) e Oficial Wagner (Noah Sagan) – o primeiro prima mais pela seriedade, mas o segundo protagoniza alguns dos melhores momentos de comédia do filme – dão seguimento às perguntas de rotina nestas situações.
Na primeira entrevista, Linda recorda a festa de aniversário de Harlan, na noite fatídica e revela mais uma das personagens do filme, a bisavó Wanetta (K Callan), cuja idade é um enigma e é praticamente muda – tirando honrosas situações.
A recordação é interrompida pelo som de uma tecla de piano. Ao fundo, propositadamente desfocado, está o detetive privado Benoit Blanc (Daniel Craig), cuja razão para a sua presença num caso de suicídio é, durante grande parte do tempo, inexplicável – à parte de um pedido anónimo que lhe foi feito. O sotaque, o guarda-roupa e toda a aura criada à volta da personagem torna Benoit Blanc – e Daniel Craig – um dos pontos mais interessantes de todo o filme.
Durante estas entrevistas assistimos a uma série de analepses das várias personagens – curiosamente distantes de algumas declarações à polícia – que fazem o espetador suspeitar tanto da qualidade das suas mentiras como da sua inocência.
Este intercalar entre entrevistas e memória é interrompida e, durante um intervalo, Marta é apanhada a ouvir uma conversa entre Blanc e os polícias, o que cria o pretexto ideal para um interrogatório. É nesta conversa que ficamos a descobrir a incapacidade de Marta para mentir – a mentira causa-lhe vómitos, literalmente.
Ao fim desta primeira fase ficamos a saber mais sobre a verdades e as mentiras da família, adensando o mistério sobre um insólito suicídio, envolto em suspeições.

A leitura do testamento de Harlan pode ser vista como introdução à segunda parte do filme. Os surpreendentes contornos dos últimos desejos do defunto criam uma corrupio de suspeições e reações na família, em Marta e na polícia e trazem à cena Ransom, o confiante e arrogante neto, rebelde e descontrolado, visto por todos como a ovelha negra da família.
É exatamente Ransom que se torna o veículo do mistério nesta segunda parte, desde a sua relação com Marta ou com o avô, às contribuições surpreendentes para a trama.
Esta é, talvez, uma das etapas mais empolgantes do filme – e a maior período de tempo passado fora da mansão. Entre perseguições em automóveis, desvendar de segredos, mortes e traições, Rian Johnson indica e despista o caminho a percorrer por várias vezes – de forma por vezes imprevisível e outras vezes nem tanto.
A chegada ao clímax de Knives Out é o retornar também à casa de Harlan, e à sala de interrogatório predileta. Num confronto de ideias, explicações e um estranho – e dispensável – diálogo que inclui donuts, o espetador chega ao desvendar do mistério.

Rian Johnson constrói, nesta obra, uma bela charada. A direção e o guião são de grande nível – a história é cativante e interessante, além de imprevisível o quanto baste e, à parte do já referido donut, quase todos os diálogos são muito bem conseguidos. A equipa que o acompanha faz um trabalho exemplar, desde os já falados Schlesinger, Eagan e Yedlin ao compositor Nathan Johnson que assinala as músicas originais.
Existe uma vontade de chegar a uma resposta, o espetador é enganado e torce algumas vezes pelos personagens errados – que, de resto, acabam por padecer, quase todos, de um caráter duvidoso.
Não é o mais surpreendente filme do género mas, com um elenco e atuações deste calibre, torna-se difícil falhar. Plummer merecia mais tempo no ecrã, pela presença intensa e marcante em todas as cenas; Shannon mostra uma versatilidade brutal, assim como Toni Collette e Jamie Lee Curtis. Don Johnson tem tiradas hilariantes, tal como Noah Seagan. Daniel Craig interpreta o seu papel na perfeição e a motivação e felicidade com que o faz faz-se sentir. Ana de Armas assume, mais ainda do que já tinha feito em filmes como Blade Runner 2049 (2017) ou War Dogs (2016), a sua presença em Hollywood, não como uma promessa, mas como uma certeza – a atuação é verdadeiramente credível e encantadora.

Knives Out é mais um filme de 2019 que merece alguma atenção e, ainda que não seja uma obra-prima, é puro entretenimento com qualidades que não são vistas com frequência – à cabeça, a execução (do realizador, da equipa e dos atores).
Este é um seguro representante da vertente do crime misterioso que daria muito trabalho mesmo a um experiente Hercule Poirot, e que não deixaria Agatha Christie desiludida.

Sobre o autor

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Estudante de Comunicação Social e Cultural, interessado pela escrita, pelo cinema e pela junção dos dois.
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