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“Honey Boy” – as catarses de Shia LaBeouf

Depois de “Peanut Butter Falcon”, Shia LaBeouf volta ao grande ecrã na longa-metragem “Honey Boy”. Desta vez, além do papel de ator, LaBeouf surge como argumentista, num filme intensamente autobiográfico, realizado pela reconhecida documentarista Alma Ha’rel, que assim se estreia na ficção.

A temática do crescimento, da viagem temporal e pessoal de uma personagem, apesar de ser recorrentemente explorada, tende a resultar em grandes obras, quando a forma como a narrativa é contada compensa a repetição de ideias – são exemplos recentes disso mesmo filmes como “Boyhood” ou “Moonlight”.
Na criação de Labouef e Ha’rel há três pontos que tornam este “Honey Boy” um dos destaques no cinema coming-of-age dos últimos anos: o primeiro, assenta no facto de esta ser a vida de uma figura conhecida mundialmente, famosa não só pela sua profissão, mas também pela vida extraprofissional, repleta de mediatismo, casos e escândalos; o segundo, a perícia com que a realizadora e a diretora de fotografia (Natasha Braier) nos apresentam as imagens, por meio de saltos cronológicos propositados e acertados, entrando na e compreendendo a intimidade de uma personagem; e terceiro, o fantástico desempenho dos atores, com grande destaque para o mais jovem, Noah Jupe, no papel do Otis (ou Shia LaBeouf) mais novo.

A película abre com um Otis mais velho (o intenso Lucas Hedges), quase adulto, na rodagem de uma cena de ação – possivelmente de um filme como “Transformers”, um dos mais famosos papéis de LaBeouf. Uma explosão atira Otis, agarrado por um arnês, para o meio de escombros. Quando regressa da gravação, encontra solução para o arnês demasiado apertado, do qual não se consegue libertar, numa garrafa de uísque, da qual bebe do gargalo, sozinho no seu camarim.
De seguida, uma montagem de várias imagens, em diferentes situações, permite que nos inteiremos dos contextos que definem a vida de Otis. As imagens revelam o abuso de substâncias, a raiva e a ténue linha entre aquilo que se passa em estúdio e na vida real. É aqui, na vida real que, em vez de uma explosão que o atira para os escombros, um acidente de carro o atira para a prisão e para uma obrigatória reabilitação.
Voltamos a ir ao encontro da raiva incontrolável de Otis, numa discussão com a sua psiquiatra contra o diagnóstico que lhe é feito: Síndrome de Stress Pós-Traumático.

Desta conversa saltamos para um Otis de 12 anos (Jupe), mais uma vez em estúdio.
É-lhe atirada uma tarte, que rebenta, em câmara-lenta, por toda a sua cara, cabelo e roupa. O take acaba e Otis, mais uma vez equipado com um arnês demasiado apertado, procura pelo pai, James (Shia LaBeouf). Encontra-o a tentar seduzir uma trabalhadora do estúdio. Otis pede-lhe que o ajude a desapertar o “colete-de-forças”, mas as atenções deste estão todas concentradas na mulher com quem está a falar.
Pouco depois sobe para a mota do pai. Durante a viagem até ao motel sujo e barato onde ambos vivem, Otis encosta a cabeça às costas de James, que a empurra para trás com o capacete.
Fica claro, desde o início, que as relações interpessoais de Otis ajudam a definir aquilo que ele é como pessoa. Durante todo o filme não conhecemos a mãe, apesar de, numa ocasião, a ouvirmos falar, ao telefone; não conhecemos verdadeiras relações amorosas; poucos são os sintomas de amizades autênticas – aparte de uma estranha e, por vezes, constrangedora intimidade com Shy Girl (FKA Twigs), uma prostituta, cuja idade é vaga, e que vive no mesmo motel; e a distância com James, que raras vezes surge como um verdadeiro pai – seja pela subordinação salarial para com o próprio filho, seja pela inveja de um talento que não reconhece em si mesmo, ou pelo passado no Vietname, de toxicodependência ou de uma misteriosa condenação como criminoso sexual.

Talvez por tantas vezes se definirem as pessoas pela forma como se comportam nas suas relações, passemos tanto tempo com o Otis mais novo. Explora-se o percurso social de uma criança que não tem tempo para o ser, que se desdobra entre as tentativas de conectar com um pai e um emprego que, grande parte das vezes, não o entusiasma e não o realiza, ainda que pague as contas – mais uma preocupação anormal para a tenra idade.
É por estas razões que descarrega as suas dúvidas e frustrações nas talentosas atuações humorísticas ou dramáticas; em cigarros mal fumados – oferecidos por James; ou em pequenos momentos, ora maternais, ora de amizade, ora de teor sexual com Shy Girl.
Os conceitos confundem-se na sua cabeça. Principalmente porque ninguém lhos ensinou. Eles não existem naquilo que é a sua experiência. Eles mesclam-se de tal forma que se movimenta e decide através das sensações que os momentos lhe transmitem. Um instante define o instante seguinte – seja porque lhe dizem o que é que tem de fazer, seja porque ninguém lhe indica o que não fazer. A inocência pura que colide com uma precoce necessidade de maturidade.

É assim que, sempre que voltamos ao Otis mais velho, quase sempre na clínica, compreendemos, em parte, a forma como age. A forma como reage aos avanços dos terapeutas ou dos outros pacientes, que se vão tentando aproximar, ajuda a definir a sua total desorientação. A recusa dos métodos usados para a cura, a arrogância, a agressividade, a distância.
Num certo momento, numa conversa aparentemente normal, um terapeuta pergunta a Otis se ele está a falar a sério ou a gozar com ele, Otis responde: ”Os dois”. Não se sabe bem se existe a pretensão de ser enigmático ou se existe uma compreensão da dualidade da resposta ou, se, ainda mais, simplesmente não lhe interessa responder algo concreto. Mais uma vez, a enigmática e instável personalidade de Otis – ou a falta dela –, construída através de remendos, não nos deixa verdadeiramente perceber quem é esta pessoa ou, talvez pior, quais as suas intenções (a vida real de Shia LaBeouf parece encontrar-se com o Otis ficcional neste ponto).

O caminho que o filme percorre tem, sem grande surpresa, um intento catártico. Não só para a personagem, ou para o argumentista, mas também para a audiência que, por muito que se distancie de Otis, entende algumas das interrogações pessoais, algumas das dores e algumas das frustrações. As histórias pessoais são únicas, mas, não raras vezes, diferentes histórias encontram-se em iguais sensações.
Esta catarse surge, nos últimos momentos, num reencontro entre o Otis mais velho e James, no motel onde o segundo ainda vive, de forma muito clara: “Um dia vou fazer um filme sobre ti.”. O ecrã fica negro e, no canto inferior esquerdo, aparece uma fotografia de LaBeouf e o pai.

“Honey Boy” é uma vitória para LaBeouf. Depois de muitos anos em que a volatilidade do ator, de carne-e-osso, se confundia com uma personagem, este filme surge como um passo em frente. Não só esta estreia como argumentista parece exorcizar certos demónios do seu passado, como confirma também o seu talento artístico de grande alcance. A sua qualidade como ator nunca necessitou de ser posta em causa, mas parecia rivalizar com a atenção que recebia por motivos menos dignos. Aqui, espera-se, a catarse de Otis será a catarse de Shia e um passo em frente na carreira cinematográfica, já repleta de triunfos de qualidade, mas nenhum com o mesmo nível de significado.
Da mesma forma, a realizadora Alma Ha’rel, não parece ter sofrido com este primeiro trabalho de ficção e, talvez até pelo seu histórico profissional em documentários, capta a beleza de uma história trágica de forma magnífica, com um sentido clínico.
O duo formado entre Ha’rel e Braier é um dos grandes ativos deste filme, algo que fica claro em certas cenas – por exemplo, numa fantástica sequência sem diálogo onde participam Shy Girl e o jovem Otis.

Outro dos marcos desta obra são as interpretações. LaBeouf, interpretando o próprio pai, transparece o desencanto e a insensatez de um pai que não se consegue encontrar, nem ultrapassar um passado que o persegue; Lucas Hedges já não surpreende, e confirma aquilo que os papéis em “Manchester by the Sea” ou “Lady Bird” já tinham mostrado ocupando o ecrã com uma ferocidade tão frustrante como contagiante; Noah Jupe, a estrela mais cintilante de “Honey Boy”, domina os momentos sempre que participa, fluindo organicamente pelas diferentes emoções a que as cenas obrigam, com uma credibilidade de alguém já muito experiente, denotando a ignorância, a ingenuidade e a ternura de uma criança, ao mesmo tempo que toma controlo quando a isso é obrigado.
A competição da época dos prémios era enorme, mas algumas vitórias em prémios da Directors Guild of America, da Hollywood Critics Association ou no famoso Sundance, além de inúmeras outras nomeações, não deixam desmentir o feito que é “Honey Boy”, um dos filmes mais tocantes de 2019.

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