Cine & Séries

‘Desbobinar’: O Engenho da Inspiração

Foi anunciado no mês passado o próximo projeto de Luca Guadagnino. O cineasta italiano, também responsável pela adaptação de Call Me By Your Name ao cinema, vai realizar um filme baseado no disco Blood On The Tracks de Bob Dylan, lançado em 1975. Trata-se do primeiro álbum musical a ser dramatizado para o grande ecrã e um exemplo de como a inspiração cinematográfica não encontra limites.

Ora, é precisamente a partir dessa notícia que o ‘Desbobinar’ de novembro vai procurar desconstruir o modo como as ideias podem surgir aos cinéfilos. O conteúdo de um bom filme precisa de estar bem assente numa premissa sólida e fortemente articulada com os tópicos a abordar, formando uma aliança com as características e motivações das personagens. O modo como todos esses elementos se interligam depende muito da capacidade criativa do autor quando desenha um universo próprio, ou da forma como interpreta um fator externo que o ajude a concretizar o argumento e guião. Comummente, associamos adaptações de livros ou encenações biográficas à intertextualidade do cinema. Contudo, existe um variado conjunto de fatores por explorar na criação de arte. Seja uma carta que recebemos no correio, um simples poema ou um acontecimento marcante da vida pessoal, a natureza inspiracional não tem limites de validade para ser transposta para o grande ecrã.

Aproveito o preâmbulo do artigo para referir as adaptações de discos. A potencialidade de adaptação é enorme. Cada música representa uma cena diferente, a leveza ou tensão são medidas pelos acordes e a panóplia de emoções são exploradas pela mistura instrumental. Por exemplo, The Wall dos Pink Floyd, acompanha uma personagem que Roger Waters baseou em si próprio. Somos levados a acompanhar um rapaz pela sua infância penosa e adolescência sufocante que o levam a refugiar-se no rock ‘n’ roll, já em adulto, que culmina com o seu isolamento da sociedade. Um álbum bastante introspetivo cujos ricos temas sensíveis sobre a fragilidade humana e a sua condição precária permitem semear um filme com uma montanha-russa de emoções. Aliás, caso fosse bem planeado e executado, só a abordagem temática possibilitaria piscar o olho a uma eventual estatueta dourada.

The Rise and Fall of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars, de David Bowie, apesar de ter sido convertido num documentário no final dos anos 70, é outro exemplo válido, a par do recente Tranquility Base Hotel & Casino, dos Arctic Monkeys. Podemos afirmar que este último se inspirou nos conceitos e sons do primeiro para narrar uma visão mais matura da banda de Sheffield sobre a modernidade. Quem ouve o lirismo de Alex Turner embarca numa aventura na lua em que cada uma das onzes composições formam capítulos de antologia sobre um escape ao consumismo, fama e religião, por exemplo. No futuro, seria interessante abordar os tópicos do álbum numa minissérie de ficção científica comandadas pelo mais ponderado sotaque de Yorkshire.

Todavia, não passam de sugestões e um reflexo de um desejo pessoal. Há, por outro lado, outras fontes de inspiração fora do universo musical que já mereceram a deslocação para o grande ecrã. Os poemas, pela riqueza simbólica que lhes é característica e o modo como enaltecem o heroísmo, em certos casos, revelam grande potencial para tal. Braveheart ilustra este caso, cuja narrativa dos atos heróicos do guerreiro escocês William Wallace é inspirada num poema épico escrito por Blind Harry, no século XIV. Prova que um conjunto de estrofes tem conteúdo suficiente para poder realizar um filme repleto de ação entreter a audiência durante quase três horas, bastando para tal desconstruir o raciocínio dos autores. Um simples tema também é suficiente para poder inspirar um autor e conduzi-lo à apoteose da crítica. Veja-se Vince Gilligan, que recorreu ao simbolismo do poema Ozymandias, de Percy Bysshe Shelley, para metaforizar o colapso do império de Walter White. Não só ofereceu mais relevo à personagem, como também permitiu abrir caminho para o final desejado de Breaking Bad. Prova que as simples figuras de estilo podem ter tanto ou mais peso que a presença de uma personalidade real ou fictícia numa narrativa.

Além dos poemas, há que ter em conta a estrutura prosaica, não dos livros, mas de artigos de jornais ou revistas. Não é obrigatório uma adaptação cingir-se a um número ínfimo de páginas. O seu conteúdo pode ser formal e redigido em menos de cinco laudas. O enredo do filme Live Free or Die Hard, da saga protagonizada por Bruce Willis, foi inspirado num artigo de John Carlin para a Wired sobre a guerra cibernética. Mesmo com um vasto leque de personagens definidas e desenvolvidas, os produtores de Die Hard não se limitaram à originalidade das suas ideias para introduzir um conceito novo ao franchise. War Dogs adaptou um artigo de Guy Lawson publicado na Rolling Stone, para pormenorizar os esquemas de Efraim Diveroli (Jonah Hill) e David Packouz (Miles Teller). A aventura dos dois jovens traficantes de armas que celebram um contrato para fornecer armas ao exército afegão foi altamente ficcionada e alguns elementos foram influenciados por experiências pessoais do guionista, Stephen Chin. Ainda assim, o enredo teve o seu núcleo essencial no editorial de Lawson.

Para concluir, apresento Frank, o caso mais singular deste texto. A inspiração para o filme transcende a qualquer um dos mencionados anteriormente. Um dos argumentistas, Jon Ronson, baseou-se na personagem Frank Sidebottom, criada pelo humorista Chris Sievey, com o qual fizera parte de uma banda, para dar vida ao protagonista da narrativa. Com as devidas adaptações, concebeu uma estória tocante que combina a sua experiência enquanto músico e as vivências com o peculiar indivíduo que usava uma cabeça de papel-machê. A personagem Frank, interpretada por Michael Fassbender, é uma variação da celebrizada por Sievey, e não centra em si um efeito cómico. Acaba por servir de alerta para uma condição sensível que não deve ser menosprezada pela sociedade, que deve ter a obrigação de prestar o auxílio necessário a quem padece de doenças mentais.

A inspiração pode tardar em surgir, especialmente quando temos uma pletora de ideias que nos impede de colher frutos inventivos. Porém, quando esta floresce, apercebemo-nos que existem diversas maneiras de conceber um objeto criativo a partir de inúmeras fontes que ajudam à verossimilidade da narrativa, bem como à mensagem a transmitir. O mercado dos álbuns musicais como meio de formulação de filmes ainda se encontra numa fase embrionária. Mas, como vimos, a temática é rica e o seu material simbólico também fortalece o seu potencial. Caso a adaptação do disco de Bob Dylan seja um sucesso, podemos testemunhar uma revolução no que diz respeito à transposição de material para o cinema.

Sobre o autor

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Durante grande parte do seu dia, o Guilherme é analista de mercado numa multinacional tecnológica, enquanto se refugia na Netflix e salas de cinema durante o seu tempo livre. Por outras palavras, o Guilherme equilibra uma profissão que nunca imaginou ter, numa área na qual nunca imaginou trabalhar, com momentos de lazer onde se dedica a escrever, aquilo que sempre sonhou fazer. (o Guilherme nunca disse que queria ser poeta)
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