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As Crónicas do J-Horror: Episódio II – ‘Ring’ (1998)

Hideo Nakata em 1998 lançou o que ficará para sempre conhecida como uma das melhores adaptações de cinema de autor de sempre. Baseado na obra de Koji Susuki, Ring revolucionou um género de cinema em desgaste e abriu uma nova era de terror, não só no Japão como também internacionalmente, intitulada de J-Horror. A nova era marcou a cultura pop e inspirou inúmeros remakes, paródias e histórias nos anos que se seguiram, perdurando a sua influência até aos dias de hoje.

Este marco cinematográfico é uma combinação de um excelente argumento adaptado por Hiroshi Takahashi, uma direção visionária de Hideo Nakata, e uma atuação impecável de Hiroyuki Sanada e Nanako Matsushima, no papel de Reiko Asakawa, uma jornalista e mãe solteira que descobre a existência de uma cassete VHS amaldiçoada, e quem a assiste recebe um telefonema e morrerá após sete dias. A primeira vítima deste vírus é Tomoko, a sua sobrinha, juntamente com três amigos, que morrem inexplicavelmente à mesma hora e em locais diferentes.

Ao comparecer no seu funeral com o filho Yôichi (Rikiya Ôtaka), Asakawa descobre que Tomoko foi com os seus amigos falecidos passar um fim-de-semana numa estalagem rural, onde alegadamente terão visionado essa cassete, e decide investigar o caso, visitando o local.

Ao entrar na receção da estalagem, a jornalista repara numa cassete que se destaca no canto de um móvel, e leva-a consigo para o bungalow onde os adolescentes estiveram hospedados, assistindo ela própria à cassete. A partir do momento em que a assiste, pressente de imediato que algo está diferente e recebe uma chamada telefónica indecifrável. Percebendo que toda a situação está errada, Asakawa pede ajuda ao seu ex-marido Ryuji Takayama, e após este assistir ao VHS, os dois partem numa jornada aterradora com vista a resolver o mistério.

Esta longa-metragem funciona como uma contagem decrescente para a morte, e há medida que o sétimo dia se aproxima as datas são reveladas no ecrã, dando uma sensação muito enervante de urgência e arrasto, complementada com um ângulo de tragédia. É um filme triste e desconfortável, que obriga as personagens a refletirem o seu passado, e uma sequência de acontecimentos aumentam as consequências à medida que o dia do julgamento se aproxima, havendo uma tensão acrescida cena após cena, uma vez que estas personagens estão a caminhar diretamente para o seu fatal destino.

Em adição, Hideo Nakata juntamente com os seus parceiros Kenji Kawai na banda sonora, Nobuyuki Takahashi na edição e Jun’ichirō Hayashi na fotografia, fazem um trabalho magnífico ao criar uma atmosfera negra e silenciosa, que complementa a sensação de arrasto desta narrativa, e não a tempera demasiado com jump scares nem mesmo gore, apenas deixa a história fluir ao ritmo adequado de um slow burn, e o sound design é completamente fora de série e de prender a respiração.

Ainda, Ring é estranhamente artístico, apresenta uma banda sonora única e infalivelmente posicionada, que dá uma personalidade muito original a esta história, não se destaca no sentido de pretender assustar o espetador, e também não passa despercebida. Combinada com uma muito competente edição, este conjunto técnico permite que o filme vislumbre a sua sensação de calma e flui a narrativa organicamente, não se apressando em revelar a terrível maldição conhecida como Sadako, e prestando uma atenção minuciosa ao detalhe.

Este crescendo que se estende pelos 95 minutos de rodagem desta longa histórica precede também o que se pode considerar como um dos desfechos mais ansiosos e memoráveis em todo o terror, e a imagem da Sadako, com as suas roupas brancas e cabelo longo que esconde a sua cara irá continuar para sempre na memória de todos os que a viram.

Segue, em semelhança com o episódio I, o trailer do 20º aniversário do lançamento de Ring.

Sobre o autor

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Sou licenciado em Turismo mas sempre adorei filmes, especialmente asiáticos. Quero contribuir para a sua divulgação, pois acredito que representam um papel crucial na evolução da indústria.
Ivo Nunes

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