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Análise a ‘The Gentlemen’

Após uma década inteiramente dedicada a adaptar narrativas como Sherlock Holmes ou The Man from U.N.C.L.E, Guy Ritchie regressa agora às suas originais tramas do mundo criminal britânico. The Gentlemen ilustra as conspirações e chantagens em torno do barão de droga, Mickey Pearson (Matthew McConaughey), quando este decide vender o seu império de marijuana a um empresário americano, Matthew Berger (Jeremy Strong).

Ora, um dos elementos mais interessantes e que permitem cativar a audiência no imediato é a forma como os acontecimentos são apresentados. Ritchie desconstrói a narrativa ao  colocar os holofotes sobre um investigador privado chamado Fletcher (Hugh Grant) que, durante grande parte do filme, expõe todas as ocorrências de Pearson ao seu homem de confiança, Raymond Smith (Charlie Hunnam). Uma abordagem curiosa que dinamiza a interatividade entre as personagens e imprime maior imprevisibilidade ao enredo, ainda que possa causar alguma entropia. Enquanto percebamos estar a receber informação da perspetiva do peculiar detetive, por vezes essa ideia perde-se quando surgem algumas cenas desconectas com a narração de Fletcher. Para além disso, a presença de tantos twists, ainda que importantes para o desfecho, tornam o enredo complexo de acompanhar.

Contudo, não se pode considerar este aspeto inteiramente negativo, pois também contribui para uma maior fluidez da ação e originalidade do filme, que também beneficia do vasto conjunto de personagens bizarras, pujantes e sarcásticas – creio que já deu para ter uma breve ideia.

Tal como os protagonistas desenhados no seu início de carreira, são o carisma e humor destes que conduzem a emoção de The Gentlemen, elevando a qualidade do argumento e cobrindo eventuais lacunas. O elenco de luxo do qual também se incluem, entre outros, Colin Firth e Henry Golding, tem uma performance exemplar e linear, sem haver alguém que se destacasse mais. Este tem sido uma constante nas obras de Ritchie, que consegue mestrar a sua mina de ouro e fazer jus aos nomes que publicitam as suas produções. É capaz de coordenar cada uma das atuações para que, holisticamente, possam criar maior vivacidade às personagens que se expressam por diálogos excêntricos, repletos de ironia. No mesmo sentido, o contraste de valores e atitudes cria um ambiente de instabilidade e suspense capazes de mergulhar o público no predominante universo gangster.

Para fomentar essa experiência, The Gentlemen suporta-se ainda numa excelente edição de imagem e em planos que adjudicaram a adrenalina necessária para manter o público envolvido. Mesmo que Guy Ritchie tenha seguido os padrões da indústria e não tenha ousado em inovar, garante o essencial para uma obra deste estilo. Importa também referir a banda sonora estonteante que passa pelo country americano ao hip hop e grime britânico, entre outros géneros. De salientar o tema original composto especialmente para o filme por Bugzy Malone, ele que também teve uma participação especial no elenco, bem como o apropriado e potente Cumberland Gap de David Rawlings que surge logo nos créditos iniciais, quase em jeito de promessa de que se trataria de um filme alucinante.

Duas décadas depois de estrear Lock, Stock and Two Smoking Barrels e Snatch, Guy Ritchie demonstra manter o mesmo à-vontade e talento para captar a essência deste género. Ainda que tenha algumas falhas visíveis, The Gentlemen alia ação, incerteza e humor refinado que proporcionam uma experiência memorável aos fãs de filmes criminais. Confirma, assim, que consegue reutilizar a fórmula do costume para obter resultados distintos e sempre surpreendentes.

Para arrebatar, num cunho mais pessoal, porque não, para o seu próximo projeto, conceber uma narrativa cujas protagonistas são mulheres? Pegando no exemplo de Ros (Michelle Dockery), esposa de Mickey Pearson, mesmo relegada para um plano secundário, esta mostrou-se como uma das personagens mais curiosas do filme, com grande potencialidade de usufruir de uma estória própria. O material e o talento estão lá, falta só Guy Ritchie arregaçar as mangas. Se alguém o conhecer, tenham o obséquio de lhe fazer chegar esta sugestão.

Sobre o autor

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Durante grande parte do seu dia, o Guilherme é analista de mercado numa multinacional tecnológica, enquanto se refugia na Netflix e salas de cinema durante o seu tempo livre. Por outras palavras, o Guilherme equilibra uma profissão que nunca imaginou ter, numa área na qual nunca imaginou trabalhar, com momentos de lazer onde se dedica a escrever, aquilo que sempre sonhou fazer. (o Guilherme nunca disse que queria ser poeta)
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