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Análise a ‘Marriage Story’

Para os que não vivem em isolacionismo digital, se há filme que atualmente corre de boca em boca e fornece inspiração a qualquer criador de conteúdo, é Marriage Story, de Noah Baumbach.

A ideia para o enredo surgiu durante a produção de The Meyerowitz Stories, também disponível na Netflix, cujo conceito também partilha as particularidades sobre relacionamentos familiares. Baumbach já mostrara a sua aptidão para uma representação realista e cómico-trágica sobre as dificuldades diárias em compatibilizar ideias e valores diferentes junto de entes próximos, onde o amor se transparece em raiva. Agora, num estilo similar, mas denotando maior evolução, consegue captar um dos capítulos mais difíceis que qualquer ser humano pode passar – ou não – o divórcio, enquanto pai ou mãe de um petiz curioso de seis anos.

Num evento tão sensível como este, Marriage Story consegue captar as emoções contrastantes, o desespero angustiante e a sensação de queda-livre rumo ao abismo da forma mais natural possível. As incríveis atuações de Adam Driver e Scarlett Johansson, bem como a química que revelam em cena, suportam o naturalismo patente na estória, tornando-a credível. Possivelmente as melhores performances das suas carreiras, aliadas ao olhar crítico do argumento, conseguem acrescentar camadas de humor e ironia à exasperação burocrática do processo de divórcio americano, aumentando a cumplicidade com a audiência, principalmente com quem viveu situações idênticas.

Isto valoriza o cariz humanista da obra de Baumbach, que finalmente vê reconhecido o seu trabalho de análise às complexidades sociais e modernas relações interpessoais. Mesmo para aqueles que não passaram por crises conjugais, desafiaram o “felizes para sempre” ou, por outro lado, tenham testemunhado um ambiente mais sereno (mas sempre tenso), é impossível não sentir a mensagem que o filme transmite. Independentemente das adversidades encontradas, é impossível apagar a história que se viveu, tudo graças a um elemento confortante e estabilizador – o filho. Ainda que não seja a personagem central, sendo o foco de um casamento em litígio, é fundamental para conectar os pontos que traduzem a qualidade de Marriage Story.

É, provavelmente, um dos grandes candidatos aos Óscares de 2020, após ter sido nomeado para prémios de diversas academias de cinema norte-americanas, incluindo seis Globos d’Ouro. Tanto pode fazer rir, como inundar o rosto de lágrimas, dependendo da sensibilidade do público. Porém, o ritmo que pauta a narrativa proporciona uma sessão divertida onde o tempo é um mero passageiro das performances do elenco e montagem de diálogos que vão conduzindo Marriage Story rumo a um dos dez melhores filmes do ano.

Sobre o autor

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Durante grande parte do seu dia, o Guilherme é analista de mercado numa multinacional tecnológica, enquanto se refugia na Netflix e salas de cinema durante o seu tempo livre. Por outras palavras, o Guilherme equilibra uma profissão que nunca imaginou ter, numa área na qual nunca imaginou trabalhar, com momentos de lazer onde se dedica a escrever, aquilo que sempre sonhou fazer. (o Guilherme nunca disse que queria ser poeta)
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