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‘Aliados’ – Análise ao Filme

Para quem está à espera de ver um thriller, com elementos de espionagem e de guerra,… vai ter de esperar até à segunda parte do filme. Isto porque a primeira se foca quase exclusivamente nos dois protagonistas (interpretados por Brad Pitt e Marion Cotillard) e nos momentos em que estes se conhecem, se apaixonam, se decidem casar e passar a vida juntos. Só na segunda metade de Aliados é que entra a parte da narrativa que o trailer mais explora: a possibilidade da mulher, com quem Max Vatan casou, ser uma espiã inimiga.

Posto isto, e uma vez que o filme se concentra imenso em como estes dois formam e mantém uma relação, convém referir que esta parte não é tão aborrecida como talvez se pudesse esperar. Os momentos estão certos, perde-se o tempo necessário para que haja uma relação entre a audiência e as personagens principais, sem que por isso as cenas consigam ser lamechas ou melodramáticas. Para além disso, Zemeckis tem um jeito natural em juntar sequências de CGI com elementos do mundo real; nada parece deslocado, tudo parece existir no mesmo espaço, e um bom exemplo disso é notório numa cena de parto, no meio de bombardeamentos, de ruínas e de destroços, nada ali soa a falso. Isto vai acontecendo ao longo do filme, com apontamentos aqui e ali,

Uma das melhores coisas acerca do filme é a interpretação de Marion Cotillard; a actriz francesa tem a melhor performance do filme. Ficamos tão enamorados com Mariann como o próprio Max fica, e por isso, quando chega a parte crucial do filme – o momento em que Max é confrontado com o facto de a sua mulher poder ser uma espiã nazi -, também nós ficamos confusos com tudo aquilo, não sabendo se é verdade ou não, exatamente como a personagem de Brad Pitt se sente. Ela dá uma aura gigante de credibilidade àquela personagem, jogando sempre com as nossas suposições, e esta parte da intriga consegue manter-se sempre interessante até ao final do filme.

Aliados tem um ambiente de throwback aos filmes daquela altura. Por exemplo, a primeira parte do filme passa-se em Casablanca, onde tudo se desenrola num ritmo bastante reminiscente desses tempos – e, obviamente do filme em questão, quase numa espécie de tributo -, isto porque a fotografia, a montagem, as performances, e, principalmente, o design de produção, contribuem para isso. No entanto, se isto é um ponto positivo, a montagem, por outro lado, não é muito coesa. Para um casal que supostamente deveria ter uma urgência, uma luta contra o tempo – sabendo tudo aquilo que está em jogo para eles -, na segunda parte, o filme falha nesse aspeto de nos fazer sentir claustrofóbicos. Zemeckis parece lembrar-se dessa parte da narrativa só a meio do filme. Aliados é basicamente com e sobre duas pessoas unicamente. Pouca coisa há à volta dos protagonistas, nenhuma personagem secundária tem grande relevo ou destaque; existe o casual ex-soldado com mazelas da guerra ou a irmã de Max, mas nenhum destes tem um papel significativamente importante – o argumento não lhes dá o espaço que mereciam.

O maior problema com o filme, no entanto, é que este merecia ser bem mais negro, pesado. Aliados é obviamente tenso e cativa o espetador durante todo o percurso do filme, mas ainda assim permanece algo suave perante os tópicos que quer abordar. Esta é uma história de amor, claro, mas também de guerra, traição, e estes assuntos são deixados, infelizmente, para planos bem secundários e não são devidamente explorados. Ainda assim, o filme consegue entreter e manter-nos interessados no seu desenrolar – mais que não seja com a belíssima direção de fotografia, para os espetadores com menor predesposição para filmes destes.

Pedro Gomes é Editor de Cinema no 8.5Bits | pedrogomes (arroba) 8dot5bits.com

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